segunda-feira, 15 de abril de 2019

A criança no banco de trás

“A criança no banco de trás. O pai sendo fuzilado com oitenta tiros na frente dela. A mãe também está no carro. Ela está desesperada. Ela sai do carro e mostra a criança para os soldados do exército, pede para que eles parem. Eles não param. Eles continuam matando. A criança está suja de sangue. Ela tem sete anos. O pai foi fuzilado na frente dela. Com oitenta tiros. O avô dela também foi fuzilado dentro do carro. A criança vai ter que enterrar o pai. O exército inventa uma mentira. O exército publica uma nota oficial inventando que, na verdade, o pai estava atirando contra os soldados. Muita gente acredita porque, no Brasil, muita gente adora a violência do exército, da polícia. E no Brasil muita gente acha que quatro pessoas negras em um carro provavelmente são bandidas mesmo. A criança fica traumatizada. As semanas passam. A psicóloga diz que é bom a criança voltar às aulas para retomar a sua vida. A mãe, ainda em pedaços, leva a criança até a porta da escola, deixa uma fruta embrulhada em um guardanapo e dá um beijo na sua testa. Esconde o choro. A criança, sozinha, reencontra os amigos. Um deles fala: “Ouvi falar que o seu pai era bandido”. Por Artênius Daniel

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

#Deficiêncianaoépiada

Lembro da primeira vez que fui chamada de Capitão Gancho: foi um colega do prézinho, numa aula de educação física (que era meu maior pesadelo durante os anos de escola), onde ele lamentava que a Capitão Gancho aqui ficou no time dele e ele obviamente iria perder por causa disso. Desde então, entendi que meu corpo era motivo de piada simplesmente por ser como era, um pouco diferente do "comum". Por muito tempo eu fingi que achava engraçado essas piadas, mas ao mesmo tempo eu me achava cada vez mais feia e buscava formas de usar roupas e poses estratégicas pra esconder minha deficiência. Como todo mundo acha super normal zoar com a deficiência alheia, levei MUITO tempo pra conseguir ter confiança suficiente para me impor e dizer que não tá tudo bem fazer meu corpo de chacota. vocês não imaginam o quanto me dói ver um comediante de um alcance enorme como o Thiago Ventura fazendo graça em cima de esteriótipos ultrapassados, e o amigo Whindersson Nunes defendendo esse tipo de humor e ainda chamando de "inclusão". Mas o que mais me dói é ver a dona Netflix bem quietinha lucrando em cima da dor da parcela mais excuída da sociedade. Fiz um vídeo explicando bem direitinho o porque que #DeficiênciaNãoÉPiada e ainda dou dicas de como esses humoristas podem fazer para incluírem DE VERDADE as pessoas com deficiência nos seus shows. (Mariana Torquato)